sexta-feira

Vício de linguagem (ou paródia II)

um escreve,
o outro lê.

brincando de separar sílabas:
o traço no meio.
um no canto de cá,
o outro canta por lá.

sonhando com análise sintática:
uma frase estampada.
o que é dito por aí
bem traduzem por aqui.

dentro de cada palavra
uma coisa não para:
a vontade de ser interpretada.

depois do verso formado
o autor, sempre calado
não revela o quê, nem o porquê.

nem conta ao menos
se foi feito pra você.

quinta-feira

Diapasão

Eu tento te cantar,
É um desafino só.

Você pede Lá
Pra quem já tocou Si
Então eu faço um Mi
E você dá Ré

Quando um é sustenido
O outro é bemol

Nessa escala
Maior
Um acorde
Menor

Dá Dó.

segunda-feira

Mau-humor matinal

Minha bronca termina
com o primeiro gole de café.

Ou é interrompida por um beijo,
depois de ouvir você sussurrar que sou linda.

quinta-feira

Canto meu

O vento, vento
na janela
sopra,
disfarça almas.

Passos curtos, longos,
lentos, largos,
faróis, folhas,
olhares. Quantos olhares.

Allahu Ekber,
canta a mesquita.
(A oração é melhor que o sono,
espia o minarete.)

venta.
sopra.
E eu aqui na janela,
nesse meu canto distante.

Entrecidades

minha casa
não tem portas
nem janelas.

não tem teto mas tem lustre.
não tem gente, tem porta-retrato.
não tem jardim e eu plantei flor.

toda feita
de minha coleção de lembranças.

domingo

Véspera

Fazendo as malas,
os cílios testemunharam
um conjunto de linhas escritas.

Inteira

primeiro olhar
distante de anos
e os mais vindos
tão parcelados

meses de 'se' e 'quando'
reencontros imperfeitos,
inacabados

espera, ansiedade, desejo
o tempo que não chega
quando vem
vai-se embora

leva-me a alma,
suspira-me o peito,
sonha, sonha e não encontra

quando finge que vê
mal beijo, mal falo,
tanto queria
e o silêncio toma lugar

por quê? por quê?
é a espera que apressa,
a ansiedade que emudece?

desejo, quanto desejo
de tanto.
e nada permite,
nem o tempo, nem você.

paródia:
sentir pela metade,
falar tua língua com minha verdade.

se soubesses
da alegria de minha alma
não apenas veria
minha angústia

e assim, na tua incerteza,
escorre entre os dedos.
da ponta dos teus dedos.

Só Entrelinhas

poucos merecem
que se faça
algo em seu nome.

faço então
pelos olhares.