quinta-feira

Entrecidades

minha casa
não tem portas
nem janelas.

não tem teto mas tem lustre.
não tem gente, tem porta-retrato.
não tem jardim e eu plantei flor.

toda feita
de minha coleção de lembranças.

domingo

Véspera

Fazendo as malas,
os cílios testemunharam
um conjunto de linhas escritas.

Inteira

primeiro olhar
distante de anos
e os mais vindos
tão parcelados

meses de 'se' e 'quando'
reencontros imperfeitos,
inacabados

espera, ansiedade, desejo
o tempo que não chega
quando vem
vai-se embora

leva-me a alma,
suspira-me o peito,
sonha, sonha e não encontra

quando finge que vê
mal beijo, mal falo,
tanto queria
e o silêncio toma lugar

por quê? por quê?
é a espera que apressa,
a ansiedade que emudece?

desejo, quanto desejo
de tanto.
e nada permite,
nem o tempo, nem você.

paródia:
sentir pela metade,
falar tua língua com minha verdade.

se soubesses
da alegria de minha alma
não apenas veria
minha angústia

e assim, na tua incerteza,
escorre entre os dedos.
da ponta dos teus dedos.

Só Entrelinhas

poucos merecem
que se faça
algo em seu nome.

faço então
pelos olhares.